as told by kakio.      

lapsos

    True Believer!    Segurem seus quadrinhos, porque Gwenpool está de volta! A garota de rosa, especialista em situações impossíveis, planos improvisados e sobreviver a coisas que definitivamente não deveriam ser possíveis. Então preparem-se, porque se tem uma coisa garantida por aqui... é que nada vai sair exatamente como planejado!

Entre páginas esquecidas, memórias perdidas e caminhos que nunca foram escritos, existe algo que permanece.

   Uma garota.    
   Uma história.    
   Uma pergunta.    

   Memórias não aparecem, elas vazam.    

Memórias deveriam pertencer ao passado, guardadas em algum lugar da mente esperando o momento certo para retornar. Um rosto antigo, uma conversa esquecida, uma sensação que o tempo tentou apagar. Mas Gwen Poole sempre teve uma relação complicada com coisas que deveriam seguir regras. Algumas lembranças não pareciam voltar; elas pareciam chegar, como pedaços de uma vida que continuava acontecendo em algum lugar distante, atravessando uma barreira invisível. Não era como lembrar de algo perdido. Era como receber o spoiler de uma edição que ela nunca comprou nas bancas.Ela nunca teve problemas com histórias complicadas — costumava gostar delas quando lia em seu quarto no mundo real, antes de cair para dentro das páginas. Histórias simples eram fáceis demais: heróis bons, vilões ruins, uma luta no final e todos voltavam para casa sabendo exatamente quem eram. O problema real sempre foi o epílogo. O que acontece quando a história termina, as vendas caem, mas a personagem continua respirando? Quem você se torna quando o roteirista desiste de escrever o seu próximo capítulo?Talvez por isso a sua mente tenha começado a criar falhas de continuidade. A primeira quebra na lógica foi uma tolice doméstica na imensidão gótica do Sanctum Sanctorum. Gwen abriu o armário da cozinha procurando o açúcar para o chá. Sua mão foi direto para o lado esquerdo, impulsionada por um hábito automático que ela jurava ter praticado por anos. Parou. O pote não estava ali. Ela franziu a testa, olhou para o outro lado e viu a porcelana antiga onde o ingrediente sempre esteve.

Não era o açúcar que a incomodava, era a convicção absoluta de que aquela cozinha estava arrumada do jeito errado. Como se uma versão alternativa dela mesma estivesse dividindo aquele espaço místico há séculos, acostumada com o cheiro de incenso, de folhas de sândalo e com o som de uma lareira que nunca apagava. Gwen conhecia o cânone da Marvel de cor. Ela sabia que a Gwenpool dos quadrinhos oficiais nunca morou no Sanctum, nunca foi acolhida por Stephen Strange e nunca teve uma rotina ali. Mas o seu corpo discordava das revistasDepois vieram os outros flashes. Uma música mística em um idioma esquecido que ela sabia cantarolar perfeitamente. Uma rua específica em Greenwich Village onde seus pés sabiam exatamente qual bueiro evitar se estivesse chovendo. Uma piada interna sobre o plano astral que ela achou engraçada antes mesmo de Stephen Strange abrir a biblioteca para explicar o conceito. Era mais fácil aceitar um monstro gigante destruindo a Times Square do que entender por que o traço da sua própria realidade parecia desalinhado. O medo pelo menos avisa que alguma coisa está errada e te prepara para lutar. A saudade de algo que teoricamente nunca existiu é um tipo muito mais cruel de feitiçaria; ela faz parecer que o erro está em você.O escritor percebeu antes dela. Não porque controlasse o destino, mas porque foi o primeiro a notar o espaço em branco na diagramação da página, uma hesitação sutil no balão de fala quando ela andava pelos corredores. Gwen continuava sendo Gwen — fazia piadas, quebrava a quarta parede e se jogava em problemas absurdos. Mas ela olhava para os cantos dos painéis como se esperasse encontrar alguém que o editor-chefe decidiu cortar da edição final. Ela o observava: o homem de têmporas grisalhas e capa vermelha, cuja voz severa, mas profundamente paciente, parecia carregar o peso de um pai preocupado. Havia uma cadeira vazia na mesa de leitura dele, uma xícara de chá intocada e o eco de uma conversa paternal que parecia ter sido apagada na revisão do roteiro.

Para não enlouquecer com o paradoxo, Gwen começou a registrar o caos em um caderno escondido sob o colchão. Na primeira página, escreveu: "Coisas que eu lembro de viver com o Stephen, mas que não estão nas minhas HQs." As anotações cresceram, colecionando detalhes de uma intimidade que nenhuma fanfic conseguiria inventar. Ela esperava encontrar uma explicação vilanesca nas frestas do limbo editorial — um feitiço de ilusão mal conjurado, um inimigo manipulando sua mente, um Retcon agressivo. Mas quanto mais escrevia, mais percebia que não havia nenhum vilão para socar. Só havia ela, uma caneta e o eco de páginas viradas.Algumas histórias deixam cicatrizes profundas na folha de papel, mesmo quando mudam de autor ou sofrem um reboot completo. Talvez fosse isso que o Criador estivesse observando lá de cima, além do teto do Sanctum. Diferentes versões de Gwen Poole ainda existiam em algum lugar entre uma lembrança e outra: a garota que queria ser heroína na sua própria revista mensal, a garota que queria apenas continuar existindo em um encadernado de equipe, e a garota do RPG que tentava se equilibrar entre o que foi impresso e o que estava vivendo. Todas elas eram Gwen. E nenhuma delas era completamente a dona daquele caderno.Era fácil ignorar o cânone oficial quando se estava em perigo, ou aceitar que a continuidade dos quadrinhos muda o tempo todo para vender mais edições. O verdadeiro desafio era conversar com as pessoas no Sanctum, olhar nos olhos de Stephen Strange e sentir o peso de um carinho legítimo que parecia não ter sido registrado por nenhum artista da Marvel. Ninguém nunca contou para ela o que vinha depois da última folha, quando as luzes do painel se apagassem e a personagem precisasse continuar andando sem nenhum roteiro para guiar seus passos.Não importava quantas histórias existissem no multiverso, quantas versões dela fossem desenhadas na mesa de luz ou quantas vezes alguém reescrevesse seu nome em uma nova linha do tempo. No fim de tudo, ela ainda conseguia fechar os olhos e ver o reflexo da janela redonda do Sanctum. Ainda existia apenas uma Gwen, sentada no chão do quarto, tentando descobrir quem queria ser agora que sua história tinha ganhado vida própria, longe das bancas de jornal. E essa era a única certeza que realmente importava.

confira o plot anterior:

gwenny!